© 2017 Creado por Chaya Vazquez

Coluna>>> SAGRADA PROFANA
Por Nara Torres
Sobre o Bloco de Carnaval

A Fanfarra Feminina Sagrada Profana estreou nas ruas de Belo Horizonte no pré-carnaval de 2017, reunindo cerca de 50 mulheres, entre sopristas, batuqueiras e performers. Sua criação está intimamente ligada a recente explosão do movimento feminista no Brasil, com o propósito de ser um espaço de encontro, criação, empoderamento e voz para as mulheres. O projeto, criado por Nara Torres, iniciou-se com oficinas de percussão para iniciantes e foi se desenvolvendo no sentido de agregar outras manifestações artísticas nas quais a mulher ainda não está estatisticamente presente na cena. Um naipe de sopros foi formado, incluindo metais e madeiras, assim como uma ala de dança e de circo, que estão em formação. No repertório, a Fanfarra apresenta versões instrumentais para composições e interpretações de ícones femininos da música popular, como Elza Soares, Nina Simone, Rita Lee e Chiquinha Gonzaga. Sagrada Profana leva as ruas o desejo de igualdade e de que, cada vez mais, possamos vivenciar o equilíbrio nas relações humanas. 

É com muita alegria que inauguramos esse espaço para que a voz feminina possa ecoar cada vez mais.

Desde já, compartilho minha gratidão pelo convite de Chaya e também por toda a sua luta, persistência e talento.

Nos encontramos pelos caminhos da música, e é neste caminho que nossas almas seguem conectadas.

A música é poderosa.

Desperta em nós saberes adormecidos, que ao receberem um mínimo estímulo vem a tona, brilham e nos preenchem.
É maravilhoso poder vivenciar isso diariamente e daí vem o desejo de que esse prazer seja compartilhado.

Sagrada Profana nasceu no contexto do carnaval de rua, que reúne três grandes paixões da minha vida: arte, rua e festa.

Seguimos mutantes dentro do enorme potencial da arte, das transformações da rua, e convictas de que a festa é também um lugar de cura.

Tem sido maravilhoso acompanhar os desdobramentos de uma faísca de ideia que, com a adesão de pessoas incríveis que o universo tratou de unir, vem se consolidando como um grande espaço de encontros, surpresas e emoções.

O que no início era uma oficina semanal tornou-se um movimento, que toca os corações independente do gênero.

Ali, quando nos encontramos, somos tomadas por um enorme amor, que contagia até as nossas feridas mais profundas, que transborda nos olhares, que nos conecta e nos sugere um só caminho: juntas transcender.

Transcender as dores, as violências e opressões, o luto pelas irmãs que se foram e também pelas que ainda sofrem, vítimas da violência contra a mulher.

Transcender os nãos, os desestímulos, o sentimento de impotência, os lugares que não foram reservados para nós. 

Sim, nós somos capazes.

Sim, nós podemos tocar qualquer instrumento.

Sim, nós podemos ser donas dos nossos corpos.

Sim, nós podemos criar um espaço que seja nosso e onde seremos ouvidas.

Sim, nós podemos tudo o que quisermos.
 

Somos sagradas, somos profanas.

04/09/2017